08
fevereiro

Redes Sociais reconfiguram as manifestações políticas

A Revista Time elegeu como personalidade do ano de 2011 a figura do “manifestante”, um reconhecimento às milhares de pessoas que foram às ruas – após organizarem protestos na web – para exigir seus direitos, lutar pela democracia e pela liberdade de expressão. O reconhecimento da publicação, entretanto, indica não apenas a consolidação de uma nova forma de organização, ou melhor, de um novo ator político, mas sim de uma nova dinâmica associativa de natureza política.

Se antes os partidos, sindicatos e associações eram os principais “agentes” políticos na formulação das bandeiras de luta como mobilização das massas, atualmente as manifestações são organizadas por cidadãos comuns, em sites de redes sociais, de forma horizontal e colaborativa. Tal reconfiguração, vale ressaltar, não se deve unicamente à internet, à cibercultura e suas filosofias libertárias. Destaca-se também a falência dos partidos, a crise institucional da política assim como a mudança de mentalidade da sociedade como elementos fundamentais para compreender esse processo.

Atualmente, as principais ações ciberativistas têm como foco questões locais e específicas (a luta contra a instalação de um camarote em uma praça, a reivindicação de mais espaço para os ciclistas em vias públicas ou protestos contra leis) em contraponto a “causas” fixas dos partidos (redução da jornada de trabalho, reajuste salarial, fim do capitalismo). Ainda nessa seara de mudanças, vale destacar as “formas” de luta. Se nas ruas um carro de som e palavras de ordem são ingredientes essenciais para um protesto, na web o topo dos trending topics no Twitter, por exemplo, é o “troféu” de uma batalha.

André Lemos, professor da UFBA e pesquisador na área de cibercultura, aponta que, dentre os objetivos principais do ciberativismo, romper com a falta de interesse sobre a coisa pública é uma das funções essenciais e comenta que a prática pode ser dividida em três categorias, a saber:

  • Conscientizar e informar, como as campanhas promovidas pelo Greenpeace e Anistia Internacional;
  • Organização e mobilização, a partir da internet, para uma determinada ação nas ruas, como o #desocupa Salvador, organizado recentemente pelo Facebook, Twitter e lista de e-mails;
  • Ações de “hacktivismo”, desde o abaixo-assinado, envio em massa de e-mails, blogagem coletiva, como foi o caso do protesto mundial #SOPA.

Na prática, o ciberativismo tem avançado de uma “revolução do sofá”, em que o sujeito apenas tuíta ou bloga conteúdo contestatório para uma relação complementar da “web para as ruas” e das “ruas para a web”, vide o exemplo da primavera árabe ou os protestos contra o #AI5Digital (a nefasta lei de cibercrimes do senador Eduardo Azeredo, que busca criminalizar práticas cotidianas no ciberespaço) no Brasil.

Para tanto, a liberação do polo emissor e a popularização das novas tecnologias de informação e comunicação (ou seja, o acesso às ferramentas de produção e distribuição de conteúdo, como fóruns, blogs, Twitter e afins) foram fundamentais, tendo em vista que potencializaram a plurivocalidade na internet. Por outro lado, os sites de redes sociais atuam como grandes ambientes associativos e discursivos. Comunidades no Orkut, Grupos e Fan Pages no Facebook e tuitagem coletiva mostram que a sociedade em rede potencializa o empoderamento do indivíduo e recupera o sentido cívico, o voluntariado e o interesse pelo comum, além de funcionarem como plataformas para atrair novos membros para a luta e organizar ações ciberativistas. Em uma frase: “Hashtag não muda nada. O povo na rua, sim!

Yuri Almeida (@herdeirodocaos) é jornalista, professor dos cursos de pós-graduação da FSBA e UNIME, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e especialista em Jornalismo Contemporâneo. Atualmente dedica-se a pesquisa sobre jornalismo colaborativo e base de dados. Edita os blogs herdeirodocaos.com e blogdelauro.com.

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Postado por Ideia3 Comunicação às 09:42
1Comentário

Comentários

Apio Vinagre Nascimento disse:

Comentário realizado em 8 de fevereiro de 2012 às 12:04

Parabéns pelo ótimo texto. Solicito autorização para publicação em nosso blog http://oipa2.wordpress.com onde difundimos, além de poesia e MPB informação. Abraços

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